sábado, 20 de dezembro de 2014

A república Livro II: A justificativa da expulsão dos poetas


       Há três espécies de bens: aquele que gostaríamos de possuir por ele mesmo; aquele que gostaríamos de possuir por ele mesmo e por suas consequências; e os que gostaríamos de possuir somente pelas consequências. O primeiro bem seria a alegria e os prazeres inofensivos; a segunda espécie de bem seria a sensatez, a vista, a saúde; a terceira espécie de bem seria a ginástica, a medicina. Mas, afinal, entre esses bens, onde caberia a justiça?
        Antes de responder essa pergunta, para contrapor Sócrates que diz que a justiça é da primeira espécie – terá ainda que justificar –, seus interlocutores, ao contrário, dizem que a justiça tem sua origem na conveniência, pois se alguém comete sua falta não quer sofrer suas consequências e quem sofre essa falta quer vingar-se. Essa falta chama-se de injustiça. Dizem também que a justiça é praticada contra a vontade, pois se obedecessem aos seus desejos todos tenderiam para a injustiça. Por último, dizem que o injusto leva uma vida melhor que o justo, pois este quer ser justo e não aparecê-lo , sendo que o injusto quer aparecer justo justamente para ter todas as honrarias que o justo merece. “Pois o supra-sumo da injustiça é parecer justo sem o ser.” O justo, ao contrário, por sê-lo e não aparecê-lo, sofre todas as injúrias, castigos, maldições que deveriam caber ao injusto. Ou seja, Platão já enxergava o problema da “aparência” que hoje, parece-me, foi hiperbolizado.
            Essa querela entre a justiça e a injustiça fica restrito ao campo prático nesse segundo livro, já que no primeiro a justiça foi definida e aceita como aquela que possui em si a reflexão, ou seja, é a responsável por guiar o homem. Pelo menos em teoria, pois Glauco e Adimanto, irmãos de Platão e seus interlocutores, querem mostrar que na prática muitos acham que a injustiça é melhor que a justiça.
            Sócrates, para contrapor, começa a desenvolver o conceito de justiça ao criar uma cidade, pois será mais fácil entendê-la no macro do que no micro. Primeiro entender a justiça no macro para depois ir ao micro. Antes disso, Sócrates desenha o que seria a cidade, como cresce conforme a necessidade de alimentação, de saúde, de divertimento, de vestimenta, de segurança. Conforme a cidade vai crescendo, será necessário mais terra e animais e, por consequência, de mais homens. Logo, o espaço que era suficiente não o é mais. Se as cidades vão crescendo nesse ritmo, logo faltará terra para todos e será natural que briguem por elas. Fica claro, aqui, que a guerra nasce das necessidades ou, indo além, de suas manutenções. Por isso para uma cidade preparada, Platão nos diz que ela precisará também de guardiões. Os guardiões são valentes e fortes, sabem ser duros com o inimigo e amigável com os amigos, com os concidadãos. Para esses guardiões, por serem brandos com uns e duros com outros, serão indispensáveis terem em si um conhecimento para justificar tal atitude e, indo mais longe, é preciso buscar sempre um conhecimento que dê base, a fortaleça, ou seja, é preciso atualizá-lo. Os guardiões, de certa maneira, são aqueles que aproximam do filósofo justamente por esse conhecimento. Mas será preciso distingui-lo ao que cabem aos guardiões e aos que cabem aos filósofos.
            A educação na cidade, Platão nos diz que ela deve ser dividida em duas: a música e a ginástica. Primeiro devemos ensinar a música, pois nesta pressupomos que há literatura e na literatura existe a divisão entre a verdadeira e a falsa. Nas falsas caberiam as fábulas por não conterem fatos verdadeiros, embora suas histórias possam conter verdades morais. Nessa literatura falsa devemos censurar, principalmente, as histórias mentirosas e sem nobrezas, muitas vezes diferentes das fábulas que são mentirosas, mas há uma verdade moral ali, ou seja, possui, de alguma maneira, certa nobreza. Quais histórias sem nobrezas são essas? São principalmente as histórias dos deuses, que são bons e justos, sendo retratados de forma totalmente contrários. São retratados como violentos, ambiciosos, vingativos, ou seja, no fundo Platão critica certa humanização dos deuses construída, sobretudo, por Homero e Hesíodo.
            Deus, para Platão, é a ideia que cabe a justiça, o belo, o bem. Ao contrário para os poetas que colocam características humanas nos deuses. O Deus para Platão só sai coisas boas, belas, justas e vantajosas. É o ideal a ser perseguido e é o ideal que faria os homens adquirirem uma educação perfeita. A poesia verdadeira deve refletir, comunicar, sentir esse deus.

O Mito do anel de Giges

            Esse mito conta a história de um pastor honesto e bom de ovelhas onde em suas terras ocorreu uma grande tempestade e um grande terremoto que abriram uma fenda na Teerã. O pastor, descobrindo essa fenda, desce-a e descobre um grande homem que possuía somente um anel. O pastor, não resistindo, pegar o anel e começa a usar. Com o tempo descobre que se virar o anel para dentro fica invisível, se virar para fora torna-se a ficar visível. Com um poder (da invisibilidade) parecido com os deuses, o pastor vai para a casa do soberano das terras para seduzir sua mulher (e consegue) e matá-lo, assim tornando-se o novo soberano.

Esse mito nos ensina que mesmo um homem bom pode ser corrompido pelo poder, ou seja, vai se deixar levar pelo instinto. É um mito contado pelos interlocutores de Sócrates para afirmarem que tanto o justo como o injusto seguirão pelo mesmo caminho – da injustiça – se tiverem a oportunidade. 

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