Cartas
sobre a felicidade
Nesta carta Epicuro já começa dizendo: “Que ninguém hesite em se dedicar
à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque
ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do
espírito”. Essa saúde do espírito é a felicidade. Um dos caminhos que levam a
saúde de espírito é a filosofia. É a filosofia que cuida da alma, do espírito.
Portanto, se a felicidade não tem data exata ou momento exato para brotar, pode
ocorrer na juventude ou na velhice, a ação de filosofar também não tem data
certa para surgir. Em todas as épocas de nossa vida estamos sempre à procura da
felicidade.
A saúde do espírito nos leva a ter duas percepções: quando velho
rejuvenescemos pela lembrança de uma vida boa – só se alcança a saúde do
espírito aquele que teve uma vida boa –; quando jovem não tememos a velhice ou
a morte, pois quem tem ou terá, buscando incansavelmente, uma saúde do espírito
saberá que a sua vida será repleta de sabedoria e boas ações.
Para uma vida feliz é necessário, em primeiro lugar, estar de braços
abertos para o costume. Os deuses, considerados por todos imortais e bem
aventurados, não podem ser associados a nada que seja incompatível a sua
imortalidade ou inadequado a sua bem aventurança. O ímpio, para Epicuro, não é
aquele que não crer nos deuses que a maioria crer, mas aquele que, junto de uma
maioria, atribui aos deuses atrocidades que não convêm com as suas naturezas
bondosas, bem aventuradas. Por isso é errônea a concepção de que os deuses
causam os maiores benefícios àqueles que foram bons, e os maiores malefícios
àqueles que foram maus. Para os deuses, assim como para Epicuro, o bem e o mal
residem nas sensações. Com a morte, finda-as. Com essa consciência de que
depois da morte não há nada a temer, podemos viver sem nenhum medo e com uma
maior possibilidade de gozá-la. São os ímpios que inventaram o temor da morte e
o castigo eterno. A existência da morte significa, justamente, sua
não-existência, pois para quem está vivo a morte não existe e para quem já
morreu, quem deixou de existir não foi a morte, foi aqueles tocados por ela. Ou
seja, quem está vivo não deve temê-la e quem já está morto já não é afetada por
ela. A morte é um instante, um suspiro imensurável.
Dizem que os jovens têm que aproveitar a vida e os velhos têm que se
preparar para a morte. Mas quem age ou aconselha tal coisa é um tolo, pois para
a felicidade humana não há tempo e nem espaços exatos. São os homens que a
constrói.
A vida humana é um cruzamento de inúmeros desejos. Existem dois tipos de
desejos: os naturais e os inúteis. Entre os naturais há aqueles que são
necessários e há aqueles que são simplesmente naturais. Entre os naturais há
aqueles que são fundamentais para a felicidade, outros para o bem-estar do corpo
e ainda há aqueles que são próprios da vida. Se conhecemos esses desejos
podemos escolher o caminho para a serenidade do corpo e da alma. Essa
serenidade pode trazer a felicidade (objetivo final) nos possibilitando escapar
de toda dor e medo. A medicina e a filosofia nos ajudariam a entender esses
desejos e a nos guiar para a felicidade.
A felicidade é o prazer do corpo e da alma. Por isso Epicuro nos diz que
é a busca desse prazer que movimenta a vida humana. Mas há prazeres e prazeres.
Não devemos escolher os inúteis que nada trariam de bom, mas somente aqueles
necessários para a felicidade, para o bem-estar do corpo, da vida. Porém, nem
todos os prazeres são preferíveis perante o sofrimento, há aqueles prazeres que
podem nos causar efeitos desagradáveis e devem ser evitados. É preferível
passar um longo tempo no sofrimento do que cair nas armadilhas desses prazeres,
concomitantemente, sempre buscando um prazer maior e necessário para alcançamos
a felicidade. Ou seja, não devemos nos entregar a qualquer prazer com a
esperança de acabar com algum sofrimento. Epicuro nos diz para resignamos
desses prazeres inúteis e menores. Toda dor é um mal, mas não devem ser todas
evitadas. Na dor podemos aprender um caminho para o bem, para o prazer que nos
leva a felicidade. “Há ocasião em que utilizamos um bem como se fosse um mal e,
ao contrário, um mal como se fosse um bem”.
O prazer para Epicuro não se refere aos prazeres intemperantes – a
bebida, por exemplo – ou àqueles que consistem no sentido, mas se refere à
ausência de sofrimentos corporais e da alma. O prazer aqui é negativo, não
afirmativo. Afirmo a felicidade na ausência da dor. Há nessa felicidade, nessa
ausência da dor, algo de racional: conseguiremos nos isentar da dor ao
investigamos os motivos que levaram a concretizá-la. Essa investigação não é de
argumentos, mas da vida, e para isso será preciso sensibilidade e prudência. A
prudência, para Epicuro, é o bem suprermo, pois dela derivamos todas as
virtudes, inclusive a própria filosofia. Mas só poderá ser prudente se existir
resquícios de uma felicidades, pois a prudência, a beleza e a justiça só podem
existir na felicidade e sem esta é impossível que as três virtudes existam.
Epicuro nos diz ainda para levamos uma vida simples e de auto-suficiência.
Pois, deste modo, iremos nos contentar pelo o que possuímos, mesmo que seja
pouco, e não sofreremos pelo o que nos falta. A vida simples, por outro lado,
nos habitua a viver nas adversidades – não sofreremos tanto ao contrários
daqueles que estão acostumados a viver na abundância e a perdem –, e nos ensina
a aproveitar melhor os tempos de abundâncias.
Para terminar uma citação provocadora: “Mas vale aceitar o mito dos
deuses, do que ser escravo do destino dos naturalistas: o mito pelo mesmos nos
oferece a esperança do perdão dos deuses através das homenagens que lhes
prestamos, ao passo que o destino é uma necessidade inexorável”.
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