A linguagem está intrinsecamente ligada aos acontecimentos, ou seja, é minimamente
possível que qualquer acontecimento seja enunciado. Porém, qual dessas ligações
convém aos efeitos de superfície ou ao próprio acontecimento?
A proposição é essa ligação da linguagem com os acontecimentos.
Muitos autores designaram três tipos de relações distintas numa proposição:
A primeira é a designação ou indicação. Essas palavras que designam fazem
justamente dentro de um estado de coisas. Todo estado de coisas é individual,
faz parte de um jogo (quebra-cabeça), por isso toda palavra que designa não
pode ser nunca universal, mas sim particular, pois pega, dentro desse estado de
coisas, imagens para serem associadas às palavras como, por exemplo: “isto,
aquilo, ele, aqui, acolá, ontem, agora, etc. Nesses casos, logicamente, as
designações tem como critério o elemento a veracidade e a falsidade. Verdadeiro
quando a designação é verdadeiramente preenchida, ou seja, as palavras
indicadoras comportaram as imagens escolhidas em um estado de coisas; é falso
quando as designações não são preenchidas, ou seja, as palavras não comportam
as imagens escolhidas ou as palavras não poderiam expressá-las. O nome próprio
também é uma designação, mas especial, pois é aquele que produz materialmente
uma singularidade.
A segunda relação é a chamada de manifestação, e assim o é ao
apresentar-se como enunciadora dos desejos e das crenças. Ao fazer isso torna a
proposição mais pessoal, possibilitando, assim, que designações sejam realizadas.
Mas há uma diferença entre desejos e crenças. A origem dos desejos é uma
causalidade interna de uma imagem
para determinar um objeto ou de um estado de coisas, a origem das crenças é uma
causalidade externa na medida em que
espera a existência desse objeto ou do estado de coisas para ser justificada,
enquanto é intrínseco que justifica o desejo.
A terceira relação é a significação. A significação possibilita uma ordem
onde premissas e conclusões fazem parte do jogo. Um jogo conceitual onde cada
proposição dessa ordem não intervém, sendo apenas elementos como premissas,
conclusão ou premissa-conclusão variantes num determinado tempo e espaço. Há
dentro da significação os significantes: “implica” e “logo”. A “Implicação” é a
definição da relação premissas e conclusões; o “logo” é a conclusão que tira
por si mesma através dessa implicação. Toda significação é uma demonstração no
sentido de que uma proposição , em uma ligação indireta, pode ser a conclusão
de outras preposições ou delas ser premissas. Aqui a demonstração não é somente
lógica, mas moral, como, por exemplo, a promessa onde a efetuação é o seu
comprimento. Porém, ao não ser totalmente lógico, não será compreendida como
uma verdade, mas como condição de verdade, ou seja, depende de um conjunto de
fatores para que sejam verdadeiras. Logo, também é esse conjunto de fatores que
designam a falsidade de uma proposição. Aqui não há oposição entre o verdadeiro
e o falso, mas dos dois com o absurdo. O verdadeiro e o falso fazem parte de um
mesmo jogo, o absurdo não.
A Manifestação vem primeiro que a
designação por ser mais pessoal, porém, em relação a significação, quem vem
primeiro? A manifestação ou a significação? Se o viés for a fala, então é a
manifestação, pois será sempre o Eu
que virá primeiro, é o Eu que designa
e demonstra; mas se for no campo da língua será a significação , pois a
proposição será manifestada primeiramente nas premissas e conclusões antes de
chegar ao Eu. De tal forma que é
através da relação das palavras com os conceitos que pode existir a variedade
do “é isto, não é isto”, pois os conceitos são variáveis. Se não fosse essa
relação das palavras com os conceitos não seria possível que os desejos enunciassem
algo além das necessidades corporais; não seriam possíveis as crenças
formulassem algo além do campo das opiniões, não formulando, assim, inferências
conceituais. Mas há um problema nisso tudo. Quando colocamos a significação à
frente de um Eu, por exemplo, podemos
cair no erro de deslocar o “logo” das suas implicações, ou seja, afirmamos que
a conclusão é tal por si mesma. Porém para chegamos nesse ponto será preciso
percorrer dois caminhos: 1) as premissas serem totalmente verdadeiras.2) mesmo
que as premissas A e B sejam verdadeiras não podemos supor Z, mas sim C, que
por sua vez, se A, B e C forem verdadeiras suporemos D, nunca Z. Consequentemente
essa equação nunca sairá das implicações, o que a levará ao infinito (não sair
nunca do campo dedutivo).
O paradoxo da proposição se constitui aqui: concomitantemente afirma-se
uma conclusão por si mesma, deslocando-o de suas implicações; porém as conclusões,
por sua vez, não será nunca homogênea, ou seja, será premissa de outra conclusão.
Para sair desse paradoxo talvez seja preciso criar outra dimensão – do sentido
– que se encaixa nas outras três – designação, manifestação e significação. Mas
isso é possível? Primeiramente, nos parece que na designação não é impossível,
pois esta trabalha com o que é verdadeiro e falso. Mas o sentido não se faz
naquilo que torna uma proposição verdadeira ou falsa, nem onde estas
efetuam-se; do outro lado a designação não suportaria uma proposição que fosse
além da correspondência entre as
palavras e as coisas ou estado de coisas designados. Porém, é certo que toda
designação tem um sentido. Mesmo sabendo que as designação possuem um certo
sentido, ele não se faz nessa nova dimensão justamente por reconhecer que as
coisas designadas só tem sentido em um contexto particular. Já em relação à manifestação é mais fácil
identificar o sentido, pois os designantes só possuem sentido em função do Eu. Este se baseia nos desejos e crenças; e estes,
como vimos, estão aludidos nas implicações, ou seja, dependem, por exemplo, de
um conceito de Mundo e de Deus para poder se manifestar como Eu. Para concretizar o paradoxo, definimos a
significação como condição de verdade, que possui a seguinte conseqüência: a
forma da possibilidade está contida na própria proposição. O fundado “vive”
independente do fundamento, o condicionado “vive” independente da condição. Oras,
pois isso ocorre quando a condição de verdade varia em si mesma na proposição,
mostrando sua cara, de diversas maneiras, num determinado espaço dependendo de
um contexto. Nessa balança onde a verdade encontra-se em um defeito, em um mar
tempestuoso sem bóia, onde as ondas a levam de cá para lá e de lá para cá, onde
as ondas a leva de condicionante à condição para depois conceber a condição
como possibilidade do condicionado; para fugir desse enjoativo balanço será
preciso fugir da forma de conceber a verdade como significação (é ela que nos
faz cair nesse mar de contextos longe de uma ilha que seria o refúgio dessas
moléculas do contextualismo) e sim como sentido.
O sentido é o expresso da proposição, ou seja, é a expressão e é
completamente indiferente em relação à proposição e seus termos como é em relação
aos objetos ou estados de coisas que designa – do simples ao universal. O sentido, assim o é, pois consegue
ultrapassar o visível sem cair nas Ideias, justamente para produzir uma experiência
alongada, desdobrada. Ou seja, o sentido nos direciona para além do visível,
pois não depende deste, mas o situa como uma “Unidade ideal correlato
intencional do ato de percepção”. Da determinação segundo um ato visível e essa
determinação é o que o faz ultrapassá-lo. O sentido nos leva direto para a
superfície.
O sentido e o expresso não existem sem a proposição e a expressão, porém
não são as mesmas coisas. Não existem pois são pontes entre uma proposição e um
estado de coisas. O sentido não sobrevive sem um estado de coisas. O sentido é
o verbo. Ao dizer que uma árvore verdeja, estamos dizendo de um atributo; se
dissemos que a árvore é verde, estamos dizendo de uma característica. O
atributo não existe sem a proposição.
O sentido, por fim, existe na relação proposição e estados de coisas. É
objetivo quando busca uma unidade ideal (sem cair nas idéias) e, por isso,
ultrapassa o que é somente visível. Assim, desdobra a experiência. A lógica do
sentido é uma lógica da arte.
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