Maria da Concessão era negra das ancas enormes, do cabelo crespo, do
sorriso inocente, dos olhos tristes. Desde pequena não sabia escrever seu nome,
mas sabia muito bem lavar roupa dos outros, dos brancos. Era a melhor negra,
linda e trabalhadeira, e todos os senhores a desejavam para lavar os seus
lençóis de água e suor.
Da Maria da Concessão pouca gente
sabia: tinha um desejo incomensurável de conhecer sobre tudo: sobre o mundo, a
vida, a si mesma. O que já conhecia sobre sua antiga terra, sobre sua
ancestralidade, não tinha valia nenhuma, era o “menos-valia” para aqueles que
dominavam o mundo. Maria da Concessão queria ser alguém, sua alma já estava
cansada da subjugação. Aliado com seu prazer em conhecer, todo dia de noite
nossa Maria estudava ciências, matemática e filosofia. Maria queria ser alguém.
Depois de muito esforço, a mão calejada delonga a costumar com a suavidade, com
a sensibilidade dos livros, Mariazinha foi se afeiçoando com aquelas letras,
com aquelas contas que antes não diziam nada, agora são as portas do paraíso.
Afeiçoando, embranqueceu. Já não era negra, agora era morena. Discutia com os
doutos Platão e Newton. A pele foi embranquecendo à medida que conhecia sobre o
mundo. Já não eram os senhores que a convidavam para lavar suas roupas, eram as
senhoras que a convidavam para tomar chá. Maria estava feliz, agora era pessoa.
Mas uma coisa ainda a incomodava: sonhava sempre com um pássaro negro que voava
e voava em terras distantes e cantava a melodia do coração, não era um pássaro
livre, mas era um pássaro feliz.
Nenhum comentário:
Postar um comentário