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sábado, 6 de dezembro de 2014

Lógica do Sentido - Terceira Série de Paradoxos: Da proposição

A linguagem está intrinsecamente ligada aos acontecimentos, ou seja, é minimamente possível que qualquer acontecimento seja enunciado. Porém, qual dessas ligações convém aos efeitos de superfície ou ao próprio acontecimento?
A proposição é essa ligação da linguagem com os acontecimentos.
Muitos autores designaram três tipos de relações distintas numa proposição: A primeira é a designação ou indicação. Essas palavras que designam fazem justamente dentro de um estado de coisas. Todo estado de coisas é individual, faz parte de um jogo (quebra-cabeça), por isso toda palavra que designa não pode ser nunca universal, mas sim particular, pois pega, dentro desse estado de coisas, imagens para serem associadas às palavras como, por exemplo: “isto, aquilo, ele, aqui, acolá, ontem, agora, etc. Nesses casos, logicamente, as designações tem como critério o elemento a veracidade e a falsidade. Verdadeiro quando a designação é verdadeiramente preenchida, ou seja, as palavras indicadoras comportaram as imagens escolhidas em um estado de coisas; é falso quando as designações não são preenchidas, ou seja, as palavras não comportam as imagens escolhidas ou as palavras não poderiam expressá-las. O nome próprio também é uma designação, mas especial, pois é aquele que produz materialmente uma singularidade.  
A segunda relação é a chamada de manifestação, e assim o é ao apresentar-se como enunciadora dos desejos e das crenças. Ao fazer isso torna a proposição mais pessoal, possibilitando, assim, que designações sejam realizadas. Mas há uma diferença entre desejos e crenças. A origem dos desejos é uma causalidade interna de uma imagem para determinar um objeto ou de um estado de coisas, a origem das crenças é uma causalidade externa na medida em que espera a existência desse objeto ou do estado de coisas para ser justificada, enquanto é intrínseco que justifica o desejo.
A terceira relação é a significação. A significação possibilita uma ordem onde premissas e conclusões fazem parte do jogo. Um jogo conceitual onde cada proposição dessa ordem não intervém, sendo apenas elementos como premissas, conclusão ou premissa-conclusão variantes num determinado tempo e espaço. Há dentro da significação os significantes: “implica” e “logo”. A “Implicação” é a definição da relação premissas e conclusões; o “logo” é a conclusão que tira por si mesma através dessa implicação. Toda significação é uma demonstração no sentido de que uma proposição , em uma ligação indireta, pode ser a conclusão de outras preposições ou delas ser premissas. Aqui a demonstração não é somente lógica, mas moral, como, por exemplo, a promessa onde a efetuação é o seu comprimento. Porém, ao não ser totalmente lógico, não será compreendida como uma verdade, mas como condição de verdade, ou seja, depende de um conjunto de fatores para que sejam verdadeiras. Logo, também é esse conjunto de fatores que designam a falsidade de uma proposição. Aqui não há oposição entre o verdadeiro e o falso, mas dos dois com o absurdo. O verdadeiro e o falso fazem parte de um mesmo jogo, o absurdo não.
A Manifestação vem primeiro  que a designação por ser mais pessoal, porém, em relação a significação, quem vem primeiro? A manifestação ou a significação? Se o viés for a fala, então é a manifestação, pois será sempre o Eu que virá primeiro, é o Eu que designa e demonstra; mas se for no campo da língua será a significação , pois a proposição será manifestada primeiramente nas premissas e conclusões antes de chegar ao Eu. De tal forma que é através da relação das palavras com os conceitos que pode existir a variedade do “é isto, não é isto”, pois os conceitos são variáveis. Se não fosse essa relação das palavras com os conceitos não seria possível que os desejos enunciassem algo além das necessidades corporais; não seriam possíveis as crenças formulassem algo além do campo das opiniões, não formulando, assim, inferências conceituais. Mas há um problema nisso tudo. Quando colocamos a significação à frente de um Eu, por exemplo, podemos cair no erro de deslocar o “logo” das suas implicações, ou seja, afirmamos que a conclusão é tal por si mesma. Porém para chegamos nesse ponto será preciso percorrer dois caminhos: 1) as premissas serem totalmente verdadeiras.2) mesmo que as premissas A e B sejam verdadeiras não podemos supor Z, mas sim C, que por sua vez, se A, B e C forem verdadeiras suporemos D, nunca Z. Consequentemente essa equação nunca sairá das implicações, o que a levará ao infinito (não sair nunca do campo dedutivo).
O paradoxo da proposição se constitui aqui: concomitantemente afirma-se uma conclusão por si mesma, deslocando-o de suas implicações; porém as conclusões, por sua vez, não será nunca homogênea, ou seja, será premissa de outra conclusão.
Para sair desse paradoxo talvez seja preciso criar outra dimensão – do sentido – que se encaixa nas outras três – designação, manifestação e significação. Mas isso é possível? Primeiramente, nos parece que na designação não é impossível, pois esta trabalha com o que é verdadeiro e falso. Mas o sentido não se faz naquilo que torna uma proposição verdadeira ou falsa, nem onde estas efetuam-se; do outro lado a designação não suportaria uma proposição que fosse além  da correspondência entre as palavras e as coisas ou estado de coisas designados. Porém, é certo que toda designação tem um sentido. Mesmo sabendo que as designação possuem um certo sentido, ele não se faz nessa nova dimensão justamente por reconhecer que as coisas designadas só tem sentido em um contexto particular.  Já em relação à manifestação é mais fácil identificar o sentido, pois os designantes só possuem sentido em função do Eu.  Este se baseia nos desejos e crenças; e estes, como vimos, estão aludidos nas implicações, ou seja, dependem, por exemplo, de um conceito de Mundo e de Deus para poder se manifestar como Eu.  Para concretizar o paradoxo, definimos a significação como condição de verdade, que possui a seguinte conseqüência: a forma da possibilidade está contida na própria proposição. O fundado “vive” independente do fundamento, o condicionado “vive” independente da condição. Oras, pois isso ocorre quando a condição de verdade varia em si mesma na proposição, mostrando sua cara, de diversas maneiras, num determinado espaço dependendo de um contexto. Nessa balança onde a verdade encontra-se em um defeito, em um mar tempestuoso sem bóia, onde as ondas a levam de cá para lá e de lá para cá, onde as ondas a leva de condicionante à condição para depois conceber a condição como possibilidade do condicionado; para fugir desse enjoativo balanço será preciso fugir da forma de conceber a verdade como significação (é ela que nos faz cair nesse mar de contextos longe de uma ilha que seria o refúgio dessas moléculas do contextualismo) e sim como sentido.
O sentido é o expresso da proposição, ou seja, é a expressão e é completamente indiferente em relação à proposição e seus termos como é em relação aos objetos ou estados de coisas que designa – do simples ao universal.  O sentido, assim o é, pois consegue ultrapassar o visível sem cair nas Ideias, justamente para produzir uma experiência alongada, desdobrada. Ou seja, o sentido nos direciona para além do visível, pois não depende deste, mas o situa como uma “Unidade ideal correlato intencional do ato de percepção”. Da determinação segundo um ato visível e essa determinação é o que o faz ultrapassá-lo. O sentido nos leva direto para a superfície.
O sentido e o expresso não existem sem a proposição e a expressão, porém não são as mesmas coisas. Não existem pois são pontes entre uma proposição e um estado de coisas. O sentido não sobrevive sem um estado de coisas. O sentido é o verbo. Ao dizer que uma árvore verdeja, estamos dizendo de um atributo; se dissemos que a árvore é verde, estamos dizendo de uma característica. O atributo não existe sem a proposição.

O sentido, por fim, existe na relação proposição e estados de coisas. É objetivo quando busca uma unidade ideal (sem cair nas idéias) e, por isso, ultrapassa o que é somente visível. Assim, desdobra a experiência. A lógica do sentido é uma lógica da arte. 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Lógica do Sentido - Segunda Série de Paradoxos: Dos efeitos de superfícies

        Para os Estóicos há duas espécies de coisas: primeiramente os corpos com suas tensões, suas qualidades físicas, suas relações, suas ações e paixões e os estados de coisas correspondentes. E num corpo como em outros há uma unidade que os interligam e os desenvolvem segundo um determinado presente – unidade esta chamada de fogo primordial que pode ser definido como efeitos, acontecimentos que possibilitam as causas entre os corpos. Se for no presente que vivemos ao ocupamos um determinado espaço, se é na natureza que nos desenvolvemos, não há causas e efeitos nos corpos, somos todos causas de uns e de outros. Viver o presente significa medir a ação do agente e a paixão do paciente. A outra espécie de coisas, para os estóicos, são os efeitos incorporais. Estes podem ser atributos lógicos ou dialéticos e não qualidades ou propriedades física, são acontecimentos e não estados de coisas ou coisas, não são adjetivos ou substantivos, são verbos, são resultados de paixões e ações, não agentes e pacientes, não são presentes vivos, mas infinitos, pois são devires que divide o infinito em passado e futuro. Esses efeitos são acontecimentos (destes se criam uma estado de coisas) e são as provas que o passado e o futuro sempre dialogam-se para fazer o presente e o corpo. Oras, são esses efeitos que misturam os corpos e escolhe uma máscara, entre infinitas, para o presente. Se os corpos são causas de uns e de outros, são os efeitos que proporcionam essas causas como se guiassem, no subterrâneo, as causas. O passado, o futuro e os efeitos produzem o presente, por isso mesmo este é momentâneo.
            Os Estóicos desmembraram a relação casual (causas e efeitos) em dois grupos: as causas as causas (o destino); e aos efeitos e efeitos (o enlaçamento). Esse desmembramento ocorre na distinção de dois caminhos: os efeitos não são causas de outros efeitos (Deleuze diz no máximo que são “quase-causas”), pois os efeitos dependem de um contexto (unidade relativa ou uma misturas dos corpos) tanto quanto de suas causas reais. Ao fugir dessa relação infinita: causa-efeito (causa) – efeito (causa) – etc... salvaguarda a liberdade, justamente quando coloca na fórmula o contexto evitando, assim,  uma predeterminação ou um primeiro princípio, por exemplo. Por isso os Estóicos podem distinguir conceitualmente destino e necessidade. Essa distinção não será uma ruptura, caminharão juntas. Ao colocar o contexto nessa equação, sendo um fator inderteminante, produzirá um devir-louco, um devir ilimitado.

            Por último, o que é o verbo? É aquele que traduz esses acontecimentos incorporais, pois estes não atributos do ser, ou seja, uma ação Sendo um verbo é a linguagem que o controla, consequentemente, coloca limite nesses acontecimentos, porém é ela também que vai além desse limite ao prever o que acontecerá quando estamos situados no limite. A linguagem e o devir coexistem, pois a linguagem consegue compreender e ir além do limite. A superfície como limite.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Lógica do Sentido

Primeira série de paradoxos: Do puro devir

O devir é um tornar-se simultaneamente o passado e o presente. O que eu era e o que agora sou encontram-se em meu sangue. Não há uma ruptura. Um acontecimento puxa o outro. O paradoxo do devir é juntar o acontecimento do passado com um acontecimento do futuro em um determinado local do tempo – o presente.
            O simulacro como um puro devir. Como aquele que contesta tanto o modelo como a cópia. O simulacro é um puro devir, pois dá um toque do passado e do futuro ao presente, ou seja, diferente de um modelo e de uma cópia, ambos estão determinados, que consistem em, no primeiro caso, seguir a si mesmo – padrão –, no segundo caso, seguir esse padrão; o simulacro “coloca-se” uma personalidade ao copiar o modelo para criar algo legítimo. O simulacro como uma rota de fuga, como aquilo que é capaz de criar espantos.

            O paradoxo do devir é uma identidade infinita, ou seja, inúmeras possibilidades. Com um devir louco o presente, por exemplo, pode escapar da moldura da história. O acontecimento de um devir que ocorre em nossas vidas será sempre uma provação por não seguir uma lógica determinada, ou seja, o que esperamos que aconteça não acontece. Com isso desmascara toda a nossa estrutura, sempre nos inovando aos acontecimentos que pode chegar a um último estágio: desmistificação do eu.